Týkhe­ Associação de Psicanálise 

O Cartel e a formação do psicanalista

 

Jacques Lacan, em seu texto "A Psicanálise e seu Ensino"(1957) problematiza: "O que a psicanálise nos ensina, como ensiná-lo?". Notemos que esta pergunta não é a mesma que questionar: como ensinar a psicanálise?

Para as instituições que se colocam na via da formação do psicanalista fica a questão: como falar do inconsciente com o inconsciente, assim como poder recolher seus efeitos? Quais possibilidades poderiam estar à disposição das associações de analistas que permitissem que analisandos que são criativos em suas análises não se apresentem na instituição de modo empobrecido e dogmático?

O que perguntas como estas apontam é a questão sempre recorrente de como fazer um trabalho de formação e transmissão da psicanálise que não vá na contramão da descoberta freudiana.

 

Entendemos que o trabalho da análise segue no sentido de que, pelo atravessamento de sua relação de transferência, o sujeito se liberte do discurso parental que o constitui e o aprisiona e siga na direção de uma singularidade, destituindo o Outro do saber. Porém o que ocorre em muitas instituições que se propõem à formação de analistas é que se toma o sentido inverso das análises, inflando o Sujeito Suposto Saber (constitutivo da relação transferencial) através do discurso da mestria, que dá cada vez mais consistência ao Sujeito Suposto Saber. O ensino vira militância, ficando a teoria marcada por uma imposição superegóica, sem espaço para surpresas. Têm-se um ganho de conhecimento mas sem possibilidade de invenção.

 

Elencar tais pontos não nos garante que consigamos um modo de nos livrarmos deles. Uma comunidade de psicanalistas é um agrupamento humano e está marcada como qualquer agrupamento pelo funcionamento das massas e sua consequente busca por um mestre/líder. Mas o que interessa, por ser um lugar de formação, é que as questões da transmissão, ensino e formação do psicanalista façam atrito, não encubram o mal-estar e incitem ao trabalho. O quero dizer com isto é que a questão interessa na medida em que a resposta não mate a pergunta pois é ela, esta pergunta, que promove o movimento.

 

Para uma tentativa de cercar as questões elencadas segue uma volta teórica buscando responder a necessidade que acomete a muitos de forjar a constituição de um Sujeito Suposto Saber. Fiquei muito impressionada com a leitura feita há tempos do texto de Freud de 1908, "Sobre as teorias sexuais das crianças" e para escrita deste texto reli o artigo de Brigitte Leméner "Algumas reflexões a partir do texto de Freud sobre as teorias sexuais infantis" (A criança e o saber). Tecerei minha argumentação a partir destas leituras.

 

Freud aborda nos textos "Sobre as teorias sexuais das crianças"(1908), "A organização genital infantil: uma interpolação na teoria da sexualidade” (1923)" como também no escrito “Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância” (1910), a origem do impulso de saber. Ele diz que esta direção à pesquisa e ao conhecimento tem seu nascimento na tenra infância quando a criança se defronta com as questões que se apresentam como enigmas: a origem dos bebês, a procriação e a sexualidade. Estas perguntas conduzem as crianças a realizar pesquisas baseadas em seus próprios caminhos pulsionais e na observação daqueles que a cercam. Porém tal investigação está condenada ao fracasso porque a criança se perde em teorias errôneas que sua própria sexualidade lhe impõe e são destinadas ao abandono e posterior recalque pois tropeçam "numa ignorância que nada pode remediar". Estas pesquisas visam um gozo proibido e incestuoso, que viria conjugar o sujeito com seu ser sexuado - questão impossível de ser conquistada. Assim deduz-se que a sexualidade e o saber estão originalmente e intimamente ligados a uma falta de gozar e uma falta de saber.

 

O fracasso desta primeira pesquisa envolvendo uma independência intelectual dos pais será marcado pelo recalque e poderá ter, segundo Freud, diferentes destinos como a sublimação, a compulsão e a inibição. O trabalho da análise tal como Freud anuncia em "Análise terminável e interminável" (1937) "corrigiria" este recalque permitindo ao sujeito uma outra relação com o saber, podendo assim transpor esse horror ao saber, horror porque remete à proibição do saber sexual com a conotação incestuosa que ele carrega.

 

Por estes pontos apontados podemos afirmar que na psicanálise temos uma prática e uma teoria na qual a relação com o saber é determinada pelas diferentes modalidades de um "não quero saber nada disso". Há um movimento estrutural em que um Outro do saber é forjado para que venha dar conta deste furo no/do saber, "livrando" o sujeito da angústia que esta falta desencadeia. Conclui-se que a constituição do Sujeito Suposto Saber é ineliminável. Então como fazer o laço na formação do analista entre o saber inconsciente, o saber teórico e o saber fazer? Lacan, alinhado a Freud, coloca que somente o dispositivo das análises não é suficiente para promover o esburacamento deste saber totalizante. Para tanto ele inventa o dispositivo do cartel no “Ato de fundação da Escola Freudiana de Paris” (1964) e posteriormente o dispositivo do passe na “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola” (1967).   Abordarei dispositivo do cartel.

 

O cartel é concebido como um pequeno grupo de “no mínimo três pessoas e no máximo cinco, mais uma encarregada da seleção, da discussão e do encaminhamento a ser dado ao trabalho de cada um” (Ato de fundação da EFP, 1964). Importante destacar que o “mais um” não tem função de coordenador ou mestre. O trabalho em cartel tem um período limitado de duração e o tema a ser discutido é de escolha deste grupo, sendo a comunidade de analistas o local privilegiado de acolhimento da produção advinda do trabalho do cartel. A aposta de Lacan é de que este tipo de funcionamento não seguiria o curso dos grupos comuns onde se encontram efeitos de identificação, fusão, clivagem e inibição.

 

Através do funcionamento institucional temos uma eternização da transferência e da neurose visto que este funcionamento remete ao Outro o saber, reforçando esse "não quero saber nada disso". Não é fácil sustentar sozinho uma teoria que inclua a falta do saber, sendo mais confortável confiar a um mestre que se supõe gozar de um saber e ficar à espera que tal saber advenha.

 

Como uma possível saída para este impasse, conforme anunciado acima, Lacan propõe o cartel como um dispositivo institucional que poderá dar à instituição uma oportunidade de desfazer a suposição que o neurótico faz ao Outro não barrado, de um saber total e de um gozo. O trabalho em cartel pode, não é garantido, furar esta tendência à substancialização da mestria se tornando um lugar privilegiado para sustentar, com alguns outros, uma relação singular ao saber e ao não saber. Este trabalho pode proporcionar ao sujeito a oportunidade de se colocar na via de um desejo o qual ninguém responde por ele a não ser ele próprio, assim estabelecendo um laço entre o saber que se constrói ou se construiu em uma análise, ou seja, o saber inconsciente, com o saber aprendido na prática e o saber teórico.

 

Estamos em momento propício para darmos um Outro tratamento ao Cartel, nesta virada institucional de “Escola de Psicanálise de Campinas” para “Týkhe, Associação de Psicanálise. Finalizando, vale lembrar que um cartel não tem efeitos de cartel por todo tempo. Nada é garantido, mas vale como tentativa sempre renovada.

 

 

Cartéis em funcionamento

Seminário - livro 3 - "As Psicoses"

Quinzenal - quintas-feiras - 20h00

Alex Muniz

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Os Neoliberalismos

Dia e horário a definir

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