Revolução, corpo e dança

salto 28

Por Deborah Steinberg

O texto que se segue foi apresentado no Encontro: Políticas da psicanálise, ocorrido em junho de 2019. Nesse encontro, em sua abertura, foi apresentado o documentário: "No intenso agora" de João Moreira Salles.

O documentário trata de um eixo narrativo principal, as revoluções da década de 60. Foi realizado à partir de documentos e arquivos os quais, dentre alguns, estavam registros de uma viagem à China de Mao Tse Tung feita pela mãe do diretor; e outros, de maio de 68 na França e Tchecoslováquia, assim como no Brasil.

E foi à partir deste filme-documentário que os trabalhos, todos eles, foram realizados, inclusive este que segue chamado Revolução, corpo e dança.

Desejo a todos uma ótima leitura! Deborah

“Cairão as almas das peles Este tema chegou colérico, Ordenou:

Dá-me a rédea dos dias!”

Assim Maiakóvski, conhecido como “poeta da revolução” escreve num de seus maiores poemas, chamado Sobre Isto, fruto da relação amorosa com Lilia Brik, por ocasião da separação deles. Ele rompe o pacto de silêncio que haviam feito, tamanho sofrimento e angústia causada pela separação; mas não só, sofrimento e angustia também causado pelo silêncio do pacto.

Ele foi criticado por tratar do amor, tema considerado “individualista” em tempos de guerra e revolução. Não à toa escolhe este título enigmático: Sobre Isto. Mas em quê isto nos interessa?

Lacan em 69, sob efeito de 68, maio de 68 em Paris, que assistimos no filme, no Intenso Agora em 68, Lacan espeta o termo revolução revestindo-o de seu sentido original da Astronomia, em que os corpos celestes em sua revolução retornam ao mesmo lugar. A Terra gira em torno do Sol - por enquanto, né? Não sabemos se nestes tempos de Terra plana, isto continuará assim- mas a revolução da Terra em torno do Sol, sua estrela guia, dura um ano e ela retorna ao mesmo lugar um ano depois. Volta ao mesmo lugar, só que um ano depois. O lugar pode até ser o mesmo, mas o tempo é outro, mesmo na Astronomia. E isto não é pouco, o tempo outro, ah, o tempo outro...

Esta palavra -revolução- que desce do céu para a Terra como uma metáfora da transformação, adquire um significado político, quando aspira à mudança de poder, em que algo completamente novo, num tempo novo, surge no horizonte. Cito Hannah Arendt em seu artigo chamado: Sobre a Revolução:

“A questão social começou a desempenhar um papel revolucionário somente quando os homens, na era moderna e não antes, começaram a duvidar de que a pobreza fosse inerente à condição humana, a duvidar de que a distinção entre a minoria que, à força, pela fraude ou pelas circunstâncias, havia conseguido se libertar dos grilhões da pobreza e as massas trabalhadoras miseráveis fosse eterna e inevitável Essa dúvida, ou melhor, a certeza de que a vida na Terra podia ser abençoada com a abundância, em vez de ser amaldiçoada com a penúria, era pré-revolucionária e de origem americana; ela nasceu diretamente da experiência colonial americana. Em termos simbólicos, pode-se dizer que estava montado o palco para as revoluções no sentido moderno de uma mudança completa da sociedade quando John Adams, mais de uma década antes de eclodir efetivamente a Revolução Americana, pôde afirmar: “Sempre considero a colonização da América como a inauguração de um grandioso plano e desígnio da Providência para o esclarecimento dos ignorantes e a emancipação da parcela escrava da humanidade em toda a Terra”.

A ideia de revolução moderna, segundo Arendt, refere-se à percepção pela massa trabalhadora, miserável de que aquela condição não era eterna, inevitável e determinante. E essa percepção só se deu na Europa porque houve luz vinda do Novo Continente, onde outra vida era possível. A percepção, a luz, a clareza vem de fora, como a luz do Sol, que ilumina a Terra estando fora dela, para continuarmos com a metáfora celeste.

Revolução aspira à dimensão do novo, de um novo tempo, de maior liberdade, ainda que num mesmo lugar. Lacan insiste no retorno ao mesmo lugar; ele diz que os estudantes, aqueles estudantes, não querem outra coisa senão um mestre, sempre um mestre. Não vou por aí. Mas nesse retorno ao mesmo poderíamos pensar em repetição? Se sim, o título desta mesa: “eu sei o que vocês fizeram na revolução passada” parece interpretante: exatamente a mesma coisa; há algo de repetição que é estrutural. Mas seria só isso?

Seguindo ainda com Hannah Arendt, na era pré-moderna a pobreza era vista como algo tão natural que não só atingia o corpo social como o corpo humano. Estamos falando dos corpos miseráveis por um lado e corpos ricos de outros, como se os primeiros fossem lidos ou melhor reconhecidos como não tão humanos e os segundos como verdadeiramente humanos. Poderíamos até dizer que os primeiros, talvez, nem sequer fossem reconhecidos; mas não, há que existir esses corpos pobres para sustentar os corpos ricos. Ou vocês acham que haveria um corpo rico sem o cuidado, a servidão, o saber fazer do corpo pobre, servil, gentil, febril, sumiu, morreu? Tem outro...

Que estranho! Por que falar de corpo pobre ou rico ao invés de classes sociais? Porque são os corpos que padecem ou regozijam, é o corpo do músico Evaldo dos Santos Rosa que levou 80 tiros e não existe mais para sua família, seus amigos, sua música. E não é outra coisa que padece nos sofrimentos psíquicos, é o corpo. De Maiakosvski à mulher do músico - Luciana Nogueira é seu nome. É o corpo que sofre, seja de dor seja do pensamento.

No filme, uma das cenas em que João Moreira Salles nos narra, aquela em que descreve o rapaz que atira a pedra no confronto com a polícia; ele descreve um jeito de corpo na luta, na rua, na cidade. Jeito de um corpo que lança um objeto, atlético, que se arca para trás, retrocede para lançar longe e tentar atingir seu alvo com a pedra, o objeto lançado; e quando, depois, o corpo novamente recua.

A propósito, Alain Didier-Weill nos invoca com sua diferenciação dos corpos masculino e feminino, através das brincadeiras infantis. Há algo de notável nessas brincadeiras. Enquanto os meninos tenderiam a correr atrás de bola, recuperá-la, dominá-la, para, em seguida, chutá-la e, novamente, perdê-la, objeto fora do corpo; as meninas, por sua vez e gosto, preferem elas mesmas se lançarem às alturas, pular corda, pula-pula ou pular elástico, dançar. Em tempos em que uma ministra diz que meninas vestem rosa e meninos azul, por um lado, e por outro, as questões de gênero tão em voga, falar em brincadeiras de meninas e meninos passa a ser um campo minado. Poderia dizer corpo infantil masculino ou feminino, mas seria muito frio, sem poesia, sem graça. É claro que há meninas que gostam de jogar bola e jogam muitíssimo bem. Eu mesma sempre adorei jogar bola. Assim como tem os meninos que dançam muitíssimo bem, haja visto Billie Elliot para citar um.

Mas interessa aqui falar da estruturação psíquica feminina e masculina e de suas diferentes relações com o objeto de satisfação. E, vejam, estruturação psíquica não se confunde com identidade sexual. Estamos no campo do masculino e feminino, mas continuarei falando de menino e menina para que o texto fique mais prazeroso.
Qual diferença haveria entre o interesse de um menino em jogar bola e de uma menina em pular corda?

Allain Didier escreve que o prazer para o menino está em dominar e reconquistar o objeto fora do corpo; enquanto que a menina tem, em si, no seu corpo, por ele todo, uma Outra satisfação, prazerosa, da dança. A dança é, por natureza, feminina; não das mulheres, mas feminina. Tal qual a mulher, a dança gosta de ser penetrada pela música. E aqui abandono os termos meninos e meninas para tocar na feminilidade, com Freud, a partir de Joel Birman. Para além das insígnias fálicas determinantes do mundo capitalista, falocêntrico em que vivemos, tanto presente nos homens quanto nas mulheres, a feminilidade é de outra ordem, flerta com o erotismo. Ali onde não há garantias protetoras, divinas, no universo das Bacantes, onde elas tanto podem encantar quanto devorar e que certamente há de se ter coragem para se lançar. Mas se lançar a que? Se lançar à experiência imponderável do desamparo, que habita, na origem, a todos nós. De onde se abre o buraco, o nada, o vazio, o instante antes do criativo. Pausa.

E, agora, entro no campo da dança.

Klauss Vianna, coreógrafo brasileiro contemporâneo que inventou o que hoje chamamos a técnica dos Viannas, tem em um dos seus princípios, a oposição: “duas forças opostas geram um conflito, que gera o movimento. Este, ao surgir, se sustenta, reflete e projeta sua intenção para o exterior, no espaço (...). Desse equilíbrio de forças opostas e complementares nasce minha dança”. Não se trata aqui de transpor conceitos e técnicas de dança, para a leitura do movimento corporal, ainda que no gesto do rapaz lançando a pedra, é justamente isso que acontece: um jogo de oposição, vista tanto no corpo quanto na cena pública, política, da cidade, ainda que não seja dança, e sim apenas um movimento. A dança nasce do jogo das oposições, não para se anularem, mas sim para existirem, aparecerem e realizar o movimento, o gesto. Mas por que o sujeito não se contenta com a oposição do movimento no gesto de enfrentamento à polícia?

Deixarei esta questão para frente.

Gostaria de tocar em outro ponto da técnica, no que diz respeito ao uso do peso do corpo. É o uso do peso, tanto das partes do corpo, mãos, braços, pernas, crânio, quanto do peso do corpo como um todo, que possibilitam a leveza, a entrega e o impulso. “É pelo uso do corpo, e não pelo abandono desse que me oponho à gravidade”, diz Jussara Miller, dançarina e professora- doutora na técnica dos Viannas. O chão passa a ter uma outra função, de apoio para lançar a impulsão do movimento, o salto, o alto. O longe. Ao mesmo tempo, o chão recebe o corpo entregue, não abandonado, mas entregue. E aqui coloco a questão do motivo pelo qual a gravidade parece pesar tão mais no sofrimento psíquico, que faz o corpo parecer tão pesado, tão pesado, que cai.

O corpo que cai, que cai em depressão, é um corpo que cai de um lugar de reconhecimento pelo Outro, de fora. O efeito dessa queda é a vontade de desaparecer, por ter desaparecido para o Outro. Peso, chão.

Esse era o “campo da demanda de amor que até então impulsionava esse sujeito a ser, com relação ao Outro, um demandante, um mendicante, não deixando de estar em busca de uma prova de sua existência”, como nos escreveu Allain-Didier em seu célebre Invocações. No campo da demanda de reconhecimento da existência pelo Outro, não há outro destino senão a insatisfação, e essa famigerada pesa, pesa e muito! Peso, chão. Eis que numa inversão, ou melhor, subversão, aquele eu moderno, dividido, que duvida da determinação de pobreza, que faz revolução, eis que ao perder seu amor, como o poeta Maiakosvski, lhe cai a alma das peles. Mas, no instante em que é invocado pela música, eis que ele é subtraído da dúvida e lançado a um outro tempo, a um tempo imemorial de sua existência, arcaico, primitivo, originário. Esse toque da música no corpo o coloca nas notas, no ritmo, nesse outro tempo. Não mais o tempo da demanda de dependência e dúvida do que sou para o outro, de se satisfazer ou não com a demanda, tempo de latência, paralisado, mas neste instante uma certeza o invade, numa súbita decisão de ir em direção a.

Então, nesse instante, o corpo deixa de ser o túmulo da alma, o corpo passa a ser sujeito, sujeito de desejo. Pesa no chão e vão...

Insistimos em não nos satisfazermos tão somente com o movimento corporal de oposição social entre pobreza e riqueza, entre poder e submissão, como do rapaz que em sua luta, atira a pedra, no conflito com a polícia do filme.

Cito agora Maria Rita Kehl, num ensaio que escreveu sobre o Grupo Corpo, de dança. “A sublimação é rigorosamente, o trabalho psíquico dessexualizado dos destinos e do objeto da pulsão sexual. Do sexual, nem tudo – muito pouco, alías- pode se realizar no próprio corpo (...). Do sexual se pode gozar. Daquilo que não se goza, o destino do recalcamento produz o sintoma neurótico; o destino da sublimação produz linguagem. Produz a arte. Produz as identificações com o objeto amado. Daí que a sublimação põe em jogo uma potência ética. Ao criar um objeto, seja ele qual for, a partir do nada- este nada de onde se origina o desejo- o sujeito se faz, momentaneamente, tão onipotente quanto Deus. O oleiro, lembra Lacan, que cria com o mais reles barro a forma de um vaso circundando o vazio, não é, no momento da criação, menos potente do que Deus ao inventar céus e terras para não morrer de tédio”.

É essa possibilidade de criação que habilita o desejo, desejo este que não se realiza tão somente em sua labuta ordinária, em sua luta revolucionária ou até mesmo no ato sexual; mas sim que revela o sujeito, assim como a dança, que para além de expressar o corpo, ela sim, o revela, revela o corpo que dança.

No filme, aquela cena na China, no meio da revolução maoísta, as crianças não sei se dançam ou marcham uniformizadas; ali aparece no gesto das mãos das chinesas, elevadas às alturas e abertas em fina flor de porcelana. Detalhe notado, olhado por quem filmou, a mãe do narrador. Lá se revela o tempo imemorial, um tempo anterior ao moderno da revolução, um tempo arcaico. Octávio Paz diz das sociedades primitivas de um “passado imemorial, que está além de todos os passados, na origem da origem. (...). A vida social não é histórica, mas ritual; não é feita de sucessivas mudanças, mas consiste na repetição rítmica do passado intemporal”. (p. 22). Ele diz das sociedades primitivas, não é o caso da China, mas nesse gesto, em meio a uma certa uniformização revolucionária surge a China milenar, imemorial, quando podemos encontrar passado e presente num mesmo instante. E nesse momento de reencontro, passado e presente, o sujeito o comemora.

É Sobre Isto -como o poema de Maiakoviski- que gostaria de falar.

Bibliografia

Arendt, Hannah- Sobre a revolução

Birman, Joel- Cartografias do feminino

Kehl, Maria Rita- 7 ou 8 ensaios sobre o grupo Corpo

Lacan, Jacques- Seminário 17. O avesso da psicanálise.

Maiakoviski- Sobre isto

Miller, Jussara- A escuta do corpo

Paz, Octavio- Os filhos do barro

Vianna, Klauss- A dança

Weill, Alain Didier- Invocações