Abertura

Quero agradecer a presença de vocês nesta noite de abertura da Týkhe, abertura pública, abertura ao público. Pois convém guardar os flancos e janelas abertas, aqueles, nosoutros, que desejam se associar e compartilhar de suas experiências, os testemunhos de embaraço e invenção no trabalho do inconsciente. É que assim, habitados por uma pulsação a se abrir e se fechar, estaríamos atravessados por uma temporalidade que é própria ao inconsciente: evasiva, quando você vê: foice, já foi.

O que talvez franqueasse trazer para o conjunto das relações associativas que nos compõe, aquilo que decompõe, aquilo que da experiência de análise de cada um se pretende manter vivo na relação com o inconsciente: o que não se associa, nem se deixa integrar – Týkhe é isso que não associa. Mas ao mesmo tempo, “o que quer dizer o inconsciente senão que as associações são incontestes?”, nos pergunta Lacan, na Abertura da Seção Clínica. Sim, mas as associações não são tão livres, nem sequer dão chance ao acaso.

Há uma tensão entre estes termos, associação e Týkhe, uma antinomia que confere ao binômio uma instabilidade dinâmica, que de bom grado devemos nos valer. Até porque, e isso eu posso testemunhar, se a escolha por cada qual desses nomes se deu como que por acaso, a opção em associar ambos não nos pareceu surpreendente para considerá-la como simples acaso.

Mas o que é mesmo que é Týkhe? A que será que se destina, quando Lacan a evoca no Seminário 11? Bem, vamos encontrar esse termo num contexto em que vemos operar uma outra categorização do que até então vinha sendo chamado de “repetição” na teoria e na prática da psicanálise. A partir de uma leitura singular do problema da “causalidade acidental” encontrado na “Física” de Aristóteles, Lacan toma partido da distinção aí estabelecida entre dois modos próprios de causalidade acidental, automaton e týkhe. Para Aristóteles tudo o que acontece de maneira acidental é automaton; mas aquele acidental que resulta da atividade humana, isto é, de uma escolha que produz um efeito outro, inesperado e, portanto, involuntário, é por týkhe.

Lacan serve-se dessa referência para formalizar e materializar uma clivagem no termo “repetição”. E servir-se é bem o termo mesmo que devemos empregar, pois Lacan toma emprestado de Aristóteles as duas causas acidentais, contigentes. Mas é para revisá-las e desviá-las em seu uso estrito, cujas consequências implicam desde remanejamentos dos conceitos, que se desdobram em novas interpretações da teoria da Psicanálise e que, seguramente, haverão de repercutir naquilo que se trata, naquilo que se visa na experiência analítica Isso, por fim, não será dissociado dos elementos que fundamentam as relações associativas de Um ímpar qualquer no âmbito coletivo com mais alguns, que serão sempre outros, aberto a testemunhar ou prestar contas do que foi seu ato no encontro com o sujeito, operado por um desejo. Que a isso se dê o nome de desejo do analista, não se tem a menor certeza ou garantia prévia. Isso pode não se dar. É num segundo tempo de elaboração da teoria, de interrogar-se sobre o desejo dessa experiência, que o analista encontrará o que foi seu lance de dados.

Mas agora uma advertência chega aos meus ouvidos. Escuto ao longe a promessa que a voz do poeta me faria:

“ – Porque amanhã é sábado...

seja breve, seja leve... porque amanhã é sábado”.

Portanto, discorrer sobre as implicações, os desdobramentos e repercussões é matéria não de uma noite, mas de mil e uma - para a qual nossa associação se dispõe. Mas, mesmo se numa jornada noite adentro pudesse ser, se um banquete oferecido fosse, quem banca o Alcebíades? Melhor não.

Bem, por exemplo, uma certa decisão que levou o sujeito a um ato, cujo efeito desembocou numa série de fatos distintos da sua escolha inicial, o leva a concluir que suas consequências são involuntárias, acidentais, ainda que possa admitir em reconhecer aí um certo desdobramento possível daquela decisão primeira. Para Lacan, isso lhe parece justo como modelo para pensar a causalidade inconsciente, impossível de cogitar, impossível de antecipar, com a qual nos encontramos pela trombada, pela topada com a pedra, no meio do caminho do poeta sonambulante.

Ora, se a Týkhe é esse encontro que se produziu de maneira inesperada em relação a uma escolha inicial e a uma intenção de partida, é certo que se instaura uma descontinuidade –uma hiância- entre intenção e gesto, uma lacuna entre o que se procurou e o que se acha. Há um fracasso no encontro que provém da impossibilidade que o objeto obtido seja o objeto visado. Ou seja, a causalidade inconsciente exprime o advento de um acontecimento que quebra as expectativas de regularidade e identidade próprias ao pensamento causal. É uma causalidade que nos faz errar e encontrar o que não se esperava. Lacan faz da Týkhe o próprio encontro falho com o sexual.

Por sua vez, automaton, para Aristóteles, é a contingência, espontânea e automática, engendrada por si mesmo. Lacan vai aproveitar da literalidade do termo e alinhá-lo ao automatismo de repetição (tradução criticada pelo próprio Lacan do termo freudiano compulsão à repetição), e mesmo do “automatismo mental” de Clérambault. É assim que ele a apresenta: “o automaton – e sabemos, num certo ponto em que estamos da matemática moderna, que é a rede dos significantes” (p.54. sem.11).

O que quer dizer isso? Que esse sistema inconsciente tem no automatismo de repetição, no retorno insistente dos signos, uma lei que dá inteligibilidade a qualquer manifestação do retorno do recalcado. Portanto, ali onde a fala tropeça, e o sentido me trai ; nesse intervalo de dúvida, aonde o eu não se reconhece. Ali, algo falou e disse – na medida em que alguém o escute, o leia. Trata-se sempre do sujeito do inconsciente, excêntrico, indeterminado, em seu ponto de fuga, mas estruturado por essa ordem pré-subjetiva, insistente e automática. É o que diz Lacan (p. 50, Sem. 11): “a constituição do campo do inconsciente se assegura da Wiederkehr, do retorno. É aí que Freud garante sua certeza”. Então, a presença e a eficácia do inconsciente são assegurados por esse retorno insistente dos signos, operando autonomamente.

Nesse sentido, a repetição dos mesmos significantes precedem o sujeito e faz da linguagem a própria condição de sujeito do inconsciente. “Hoje em dia, no tempo histórico em que estamos, de formação de uma ciência, que podemos qualificar de humana, mas que é preciso distinguir bem de qualquer psicossociologia, isto é, a linguística, cujo modelo é o jogo combinatório operando em sua espontaneidade, sozinho, de maneira pré-subjetiva- é esta estrutura que dá seu estatuto ao inconsciente. É ela, em cada caso que nos garante que há sob o termo de inconsciente algo de qualificável, de acessível, de objetivável” (p. 26. Sem. 11).

Isso que Lacan enfatizou tanto ao longo dos anos de seu ensino dá ao inconsciente um estatuto lógico, do qual se pode teorizar e, fundamentalmente, com ele operar. Somos lembrados, no texto Posição do Inconsciente, da variedade de designações e sentidos da palavra inconsciente na época de Freud. Para Lacan, que não achava o rigor e nem as garantias numa psicanálise psicologizante do Eu e ao mesmo tempo procurava manter uma interlocução com a ciência, era estratégico afastar o inconsciente freudiano - e o seu - de qualquer intuição, daquele outro “romântico, da criação imaginante, lugar das divindades da noite” (p.29). Lacan vai afirmar que ele encontra-se “em posição de introduzir no domínio da causa a lei do significante”, no lugar onde essa hiância se produz.

Portanto, o inconsciente se apreende pela articulação dos significantes operando em sua autonomia, em sua lógica própria. Freud, quem produziu esse campo de investigação, notava na fala de seus pacientes aquilo que aparecia repetidas vezes em seus sonhos e parapraxias. Então, através dessa notação, dessa cifragem, disso que retorna, que cruza e se entrecruza, uma rede se constitui em torno do sujeito.

Pois bem, um automatismo de repetição que descreve e vem testemunhar o determinismo de uma causalidade estrutural, pode mesmo nos servir para entender como a identidade subjetiva se organiza; e também para evidenciar os processos associativos que dão inteligibilidade a compulsões, sintomas e inibições. É certo, como diz Lacan, “há algo de determinante numa cadeia, dizendo melhor, lei” (p.27), de modo que podemos depreender que sujeitos repetem determinações estruturais, atualizando-as nas formações inconscientes, em função dos lugares que ocupam no interior do universo simbólico. Entretanto, a experiência clínica nos fala de algo que é anterior. Pois isso não garante por sua vez, o modo como o sujeito vai se abrir para esse universo simbólico; o tanto que ele vai se deixar apanhar pela rede dos significantes; sua apetência para esse Outro, uma vez que a condição do sujeito do inconsciente não pode ser pensada sem levar em consideração sua posição que ele ocupa junto ao Outro. Pois, é o desejo do Outro o responsável pela introdução da cadeia significante. E como só se pode falar do sujeito a partir do momento em que há cadeia significante, é esse desejo que se encontra operando no Outro, que há de inaugurar um lugar para o sujeito. E por que isso engendra, fecunda, inaugura? Porque desejo do Outro é o nome daquilo que lhe falta e o leva, esse Outro, a atribuir-lhe um lugar, de onde o sujeito pode advir.

Com essa abreviada argumentação, gostaria de assinalar, ao menos, que ao introduzir no domínio da causa a lei do significante, justamente e antes de mais nada, devemos distinguir o que é do domínio da causa e que é da ordem da lei determinante numa cadeia.

Não há como restituir uma suposta identidade entre a causalidade inconsciente e suas manifestações. Não é porque essas manifestações estão estruturadas e determinadas pelo jogo combinatório dos significantes que a causa responda nessa mesma ordem, compartilhe desse mesmo registro.

Há na experiência da análise – e o caso do Homem dos Lobos é a mais completa tradução disso – o encontro com algo imemorável, que excede as reminiscências que perturbam as histéricas; inassociável, para além da volta dos signos, do retorno do recalcado, dos encadeamentos inesgotáveis e polissêmicos do significante pelas vias metafóricas e metonímicas.

O Real é o que retorna sempre no mesmo lugar, porque vai conjurar algo que, por mais que se tente, não se consegue lembrar. O pensamento não consegue encontrá-lo, visto que isso se encontra excluído da cadeia significante. O analisando dá voltas e mais voltas numa tentativa de articular o que lhe parece estar em questão, mas não consegue localizá-lo. Isso não cruza seu caminho, impossível de pensar, impossível de dizer.

Eis “a Týkhe – que é para nós o encontro com o Real”, diz Lacan. E se estamos diante de uma repetição que é fora de cogitação, ela sempre emerge para o sujeito como um acontecimento contra o qual o sujeito tromba: um encontrão, acidentalmente faltoso. Pois faltaram palavras, faltou sentido, faltou-me a rede.

Não por acaso, o trauma se apresenta como modelo dessa nova dimensão: instante único, imprevisto, inimaginável, impensável, inconcebível, instante no qual o sujeito não vislumbra nenhum recurso, nem à estrela guia, nem à estrela Dalva, ao Outro, ao laço, ao sentido que lhe pudesse oferecer suporte.

“Não é notável que na origem da experiência analítica, o Real seja apresentado na forma do que nele há de inassimilável – na forma de trauma, determinando toda sua sequência e impondo-lhe uma origem na aparência acidental?” (p. 57 sem.11). É um modo de dizer o Real como inacessível, mas evocável mesmo assim pelo Oh! do acontecimento. E por isso mesmo causando reiteradamente o sujeito dividido.

“Entre o que vivo e a vida

Entre quem estou e sou

Durmo numa descida

Descida em que não vou”

(Fernando Pessoa)

São por essas mancadas, esses tropeções com os quais nos reencontramos a todo instante – como que por acaso- que algo se produz.

“É este o modo de apreensão por excelência que comanda a nova decifragem que demos das relações do sujeito com o que faz, sua condição” (p. 56), diz Lacan. Uma vez que a Týkhe, naquilo que ela tem de traumático pelo encontro falho do sujeito com o sexo, se apresenta sempre como instante inédito e inaugural da apreensão da divisão subjetiva.

E por que nova decifragem ? Porque os processos de apreensão do sujeito em sua condição dividida, que a experiência analítica nos leva a vivenciar, realizam-se antes sob a forma irreflexiva de acontecimento/encontro com o Real; e menos sob a forma reflexiva do recordar.

É a propriedade não representacional do Real que engendra a repetição, o retorno insistente dos signos, o automaton; exigindo que o sujeito volte ao lugar da satisfação perdida, do objeto perdido. E mesmo que este objeto já esteja rasurado, anulado a partir de sua substituição pelo binário fundamental do significante (Fort/Da); mesmo assim, a repetição continuará a visa-lo e, ao fazê-lo, ela não o alcança. Nesse sentido pode-se dizer que essa repetição vai ao encontro de um Real em relação ao qual o sujeito falha. Portanto, só pode haver esse automaton do simbólico, porque houve a Týkhe com o Real, como acontecimento traumático. É o Real, como encontro falho, que coage (Zwang) o automaton da cadeia significante a repetir. É o acaso, o mau encontro com o Real traumático que força o simbólico a repetir.

Mas, repito, por que mesmo isso exige uma nova decifragem? Porque, em consequência do que dissemos, o Real não se dá a ver na análise. Ele em sua verdadeira natureza é velado, diz Lacan. Só podemos concebê-lo por ser o que vige por trás do automaton. Justamente por ser aquilo que interrompe o funcionamento autônomo e seriado, regular do automaton – sob os domínios do princípio do prazer. Interrompe e irrompe, na iminência da angustia, como o inquietante estranhamento do Unheimlich. Bem que poderia ser evitado, lamenta o sujeito, despertado ao real do circuito da pulsão. Mas bem que pode ser a hora e a vez em que alguma coisa nova surge, o momento do trauma – momento em que se inscreve o significante inteiramente sem sentido, o que empurra esse sujeito a buscar no rio de murmúrios da memória, que é sua rede simbólica, uma nova palavra no panaroma de todas as falas. Boa hora para o sujeito inventar um outro lugar desocupado em relação ao Outro, na condição de refazer seus votos e reconquistar a palavra. E relançar os dados.

Gostaria de terminar com uma questão : se a Týkhe denota esse encontro traumático com o Real, se ela qualifica aquilo que insiste em voltar ao mesmo lugar, sem se vincular; aquilo que a nada se articula, nem se representa, nem se historiciza para o tempo do sujeito; aquilo que irrompe como limite à significação. Se é assim, já temos muito trabalho para construirmos uma inteligibilidade teórica, sobre o que esse termo carrega consigo; tampouco é fácil intuirmos uma função clínica correspondente e consequente. Agora, como reconhecer a força produtiva do desencontro da Týkhe, disso que não associa, para uma Associação? Que função tem o traumático naquilo que fundamenta as relações associativas, na política de um coletivo? É preciso se arranjar com o que fica sem lugar e inconciliável. Como abordar o laço social por isso que não se inclui?

A psicanalista Cláudia Moreira, recentemente tocou num tema que pode bem nos interessar, quando tratou do texto freudiano “O homem Moises e a religião monoteísta”, cujo fio condutor, segundo a autora, “é a tese de que Moisés era egípcio e foi assassinado por seus seguidores – no qual iremos nos deparar com a articulação em certo sentido inédita entre trauma e transmissão”.

Leitura que se vale, inclusive, de uma interpretação da própria escrita freudiana nesse texto, no qual o escritor Edward Said reconheceu um exemplo clássico do que se chama o “estilo tardio”: “tudo nesse tratado sugere, não resolução e reconciliação, mas pelo contrário, mais complexidade e uma disposição para deixar os elementos inconciliáveis do trabalho assim como estão: episódicos fragmentados, não terminados (isto é sem polimento).”

A autora comenta que a noção de estilo tardio trazido por Said, plenamente aplicável ao Moisés freudiano, pode lançar luz sobre o que está em jogo em um testemunho. Nem repetir, nem esquecer.

Nesse modo de pensar a transmissão, daquela história linear e bem encadeada plena de sentido, a ruptura passa a estar em primeiro plano. O que se descolou é o que importa e impulsiona. Trata-se aqui do resto impossível de se integrar e que exatamente por isso aponta para a dimensão da verdade.

Luís Américo Valadão Queiroz

Campinas, 22 de maio de 2015.